segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Entrevista sobre a Jornada do Herói® - Parte um.

Qual a utilidade do treinamento A Jornada do Herói?

Renato Kress (RK): Olhe ao seu redor agora. O que é "natural" e o que é "criado" pelas mãos, idéias e sonhos dos homens? Pense em termos de comportamentos, instituições sociais, roupas, idiomas, sotaques, alimentação, formas de sentar, comer, amar. Quase tudo é criado. Beber em um copo ou em uma tigela é uma escolha cultural. Muitas vezes não nos damos conta disso porque estamos imersos numa cultura determinada e achamos que todo o mundo é ou "deveria ser" assim. O problema dessa questão é que muitas vezes, na correria do dia a dia, não nos damos conta de que vivemos sobre a tirania dos mortos. A utilidade maior da Jornada do Herói é trazer a responsabilidade sobre os nossos atos, nossas escolhas e atitudes para nós mesmos, é assumirmos o fardo de sermos os criadores do sentido para a narrativa das nossas vidas. Existem várias outras aplicações práticas da Jornada em criatividade, pensamento estratégico, gestão empresarial, reestruturação de vida, mas o principal está sempre na escolha, na responsabilidade, no mérito.

Você falou sobre "tirania dos mortos", o que é isso?

Émile Durkheim
RK: Tirania dos mortos é uma expressão que saiu agora, mas a base dela é uma expressão do que o Sociólogo Émile Durkheim chamava de "poder dos mortos sobre os vivos", que não tem nada de sobrenatural, é só a concepção de que tudo o que vivemos, as instituições, idéias e conceitos em que acreditamos, as regras que regem nosso comportamento social, cultural, familiar, afetivo etc, foram criadas por pessoas que já faleceram a muitos anos, pessoas que viviam numa sociedade completamente diversa da nossa, com problemas e questões completamente diferentes e, ao mesmo tempo, muito semelhantes.

A tirania dos mortos é essa situação social em que vivemos nossa vida segundo as regras ditadas por outras pessoas, especificamente pessoas que já faleceram. É quando jogamos (o termo em psicologia é "projetamos") a autonomia sobre nossas vidas para os "costumes", "leis", "regras" que foram criadas e ditadas há anos por outras pessoas, que viviam literalmente em outro mundo. Parte importante da Jornada do Herói, na verdade a primeira parte do treinamento - chamada 'Paidea' -, é justamente deixar isso bem claro para os nossos heróis. Fazer uma pergunta cuja resposta não pode ser um constrangimento interno: "Quem é o eixo-doador de sentido para a narrativa da sua vida?".

Isso quer dizer que o treinamento é contra as tradições, costumes, leis?

RK: Claro que não! De forma alguma! Isso quer dizer que o treinamento busca ensinar duas coisas importantíssimas: Autonomia e responsabilidade. Para sermos autônomos, para pensarmos por nós mesmos e para podermos tomar decisões baseadas em nossos crivos internos precisamos primeiro perceber o que é nosso e o que é imposto "de fora", seja pela sociedade, família, ambiente de trabalho, amigos, convenções sociais... percebendo o que é imposto de fora, por quem e, principalmente, porquê é imposto - a razão daquela imposição de idéias, de pensamentos e comportamentos, de modismos, de opiniões -, é que poderemos decidir aceitar ou não aquela idéia, agir ou não de acordo com aquele comportamento. Não há nada de errado em seguir um comportamento tradicional, desde que essa escolha tenha sido completamente sua, consciente e clara. Só aí há o mérito.

O mérito de um civil de sobe as escadas de um prédio em chamas para salvar uma criança pode ser considerado maior que o de um bombeiro que tenha feito a mesma coisa. Porque ele não tinha o treinamento necessário, porque ele não tinha acesso ao material necessário, mas principalmente porque não se esperava isso dele. Esperava-se que ele ligasse para os bombeiros, que ele se importasse primeiro consigo mesmo do que com a criança, que ele se acovardasse diante das chamas... heroísmo é medido em mérito e mérito é medido por essas expectativas, também.

Enfim, nada contra as tradições. Só a favor da escolha consciente em segui-las ou não. Mesmo saber quando romper uma tradição - ainda que mantendo muitas das suas orientações iniciais - é um ato divino. A obra maravilhosa do Rabino Nilton Bonder - "A Alma Imoral" - brincando filosoficamente entre os binômios "tradição-traição" trata genialmente do tema. Em certo sentido o carnaval é uma "traição" à "tradição" dos dias santos, mas é completamente necessário, inclusive para a manutenção da saúde mental de uma sociedade. Rigidez em excesso cristaliza em posturas como o nazismo da mesma forma como fluidez em excesso causa uma letargia enorme na sociedade, que não se levanta e não combate por nada, mesmo quando a causa é justa. Já dizia Apolo, em seu Oráculo na cidade de Delfos: "Méden Ágan" (nada em excesso).

Como era essa questão do Oráculo de Delfos? Isso tem a ver com a Jornada do Herói?

RK: Tem sim. Tudo a ver. Em um sentido simbólico. A palavra símbolo, vem do grego 'symbolón' que era um disco pequeno com duas partes, como se fosse um medalhão. Esse 'symbolon' teria frente e verso, como uma moeda. Então quando digo que o Oráculo de Delfos tem um sentido simbólico na Jornada do Herói quero dizer justamente que ele tem um caráter digamos "positivo" e um caráter "negativo" também. O caráter positivo é própria ideia de que haja um centro para onde as pessoas recorrem quando a vida delas perde o sentido. A idéia da existência desse centro é importante. Acreditar que haja um centro que pode nos indicar os caminhos a seguir, as decisões a tomar é importante.

Oráculo de Delfos,
pegadinha existencial...
Agora lembra o que eu disse sobre a questão da autonomia? Pois é. Aí é que está o outro lado do símbolo do Oráculo de Delfos. Todos os heróis gregos que foram ao Oráculo de Delfos tiveram um fim trágico ou uma batalha mortal onde perderam - ou tiveram de abrir mão - de partes importantes do que acreditavam que era "a sua vida". Heróis trágicos são em geral os que foram a Delfos buscar orientação. Por que isso? Porque quando projetamos nossas escolhas, nossa responsabilidade e nosso mérito em outro centro que não nós mesmos - no caso indo buscar respostas para a minha vida num lugar exterior a mim mesmo, Delfos - perdemos contato com o que há de mais íntimo em nós e abrimos mão do que caracteriza o herói, o mérito pela responsabilidade sobre os próprios atos. Aquela questão que falamos antes.

Mas por que as pessoas iam a Delfos fazer perguntas?

Herói questionando à sacerdotisa
(Pítia), no Oráculo de Delfos
RK: Essa é a melhor pergunta! Existem duas respostas para ela: a mitológica e a social. A social é a que nos interessa aqui, mas eu vou contar um pedaço do mito também, claro. A social é que heróis e pessoas comuns, reis e cidadãos iam ao Oráculo porque os pais dos pais de seus pais iam. Era uma tradição. Já perguntei à minha mãe porque ela acorda e liga a televisão e, depois de um tempo conversando, vi que a minha avó fazia isso. Veja, não estou julgando, até porque não me cabe. Estou apenas observando um padrão de comportamento de pessoas queridas e próximas a mim para depois perceber se eu faço o mesmo e aí sim julgar, para mim, se eu, Renato, quero seguir esse padrão ou não. O julgamento é sempre interno e referente à minha vida, nunca à alheia. Depois de perceber esse padrão interno, familiar, eu comecei a ver menos televisão, a definir melhor o que eu queria ver e o que eu não queria e não mais a deixar ela ligada direto. Hoje em dia eu nem vejo mais televisão, mas isso foi um processo lento de escolha autônoma pela internet como meio principal. Funciona para mim.

Gaia, Deusa Terra
Mas você me perguntou do mito sobre o Oráculo de Delfos. Ele responde também porque as pessoas iam tantas vezes a ele para "dar sentido à narrativa de suas vidas", que é um dos temas principais - se não for o tema principal da Jornada do Herói. Vou contar o mito sumariamente: Toda a terra, para os gregos, era o corpo de uma divindade feminina deitada. Os gregos, como se sabe, possuíam verdadeiro fascínio pela simetria e pelas formas, principalmente pela ideia de centro. Pois bem, qual o centro de um corpo? O umbigo, certo? Ele fica bem no meio. O Oráculo da cidade de Delfos, segundo os gregos, havia sido construído sobre uma pedra chamada "Ônfalos" ("umbigo", em português). Eles realmente acreditavam que o templo do Oráculo havia sido construído no centro do mundo, em cima do umbigo da Gaia! Além disso há outras histórias sobre o simbolismo do Oráculo. O deus responsável pelo Oráculo era Apolo que havia assassinado ali, em Delfos, a serpente Píton, repetindo o padrão que seu pai Zeus havia iniciado ao eliminar o dragão-serpente Tífon, respectivamente neto e filho de Gaia. Conto esses e outros mitos com mais detalhes e trabalho sobre eles durante a Jornada do Herói e agora terei ainda mais possibilidades de trabalhá-los no curso de mitologia on-line que estou abrindo por requisição dos meus ex-alunos da Jornada, que ficam fascinados com o universo mítico.

Então o Oráculo de Delfos, hoje em dia seria o quê exatamente?

Deus-Mercado
RK: Isso depende de você. Pode ser o "Todo-Poderoso Deus-Mercado" que vai decidir qual a faculdade é mais rentável para você agora, que vai acordar um dia eufórico, no outro depressivo, que vai julgar, condenar e absolver nações inteiras segundo as regras que mudam ao bel prazer dele. Pode ser esse tipo de tirano louco ensandecido que vai te socializar a ser agressivo, pró-ativo, combativo, hipercompetitivo, empreendedor, inquieto, eternamente carente, inseguro e por aí vai. Você fez uma cara engraçada quando eu disse "carente", é claro que é carente! Quem mais seria capaz de consumir desenfreadamente senão um ser humano radicalmente carente? É preciso que hajam carências intermináveis a suprir as necessidades de venda de um "Todo-Poderoso Deus Mercado" insaciável. Bem esse pode ser um Oráculo. Você pode tirar as suas respostas daí. Muita gente tem feito. E você vê o mundo no qual estamos vivendo...

Outro Oráculo possível hoje em dia é a "Toda Poderosa grande Mídia" que vai dizer que você tem que ficar em casa, ligar a tevê e não se socializar com outras pessoas, porque o mundo está muito perigoso, porque a "sensação de insegurança" e o "clima de violência" ou a "onda de medo" estão muito fortes e é melhor ficar em casa e - porque não? - ver mais um programinha de 10 minutos amassado entre 20 minutos de comerciais. Você também pode tirar as suas respostas daí.

Ao longo do treinamento da Jornada do Herói nós falaremos de outros oráculos, mas no geral acho que dá para perceber o quão trágico é seguir por eles. O quão problemático pode ser projetar tua autonomia e buscar orientação nesses lugares. Minha aposta pessoal e minha aposta como treinador é que o crivo interno, ser o eixo de sua própria vida, é mais interessante.

Pelo que entendi então a Jornada do Herói é um treinamento para desenvolver a autonomia e o mérito. Mas como isso é feito?

RK: O treinamento é dividido em quatro partes: Paidea, Katábasis, Anagnosis, Apoteosis. Essas partes são termos da jornada do herói mítico grego clássico e significam: Aprendizado ou preparação, mergulho nas trevas, autoconhecimento e encontro com os deuses.

Seguir o líder ou ser o SEU PRÓPRIO líder?
Na Paidéa temos o momento da "grande dúvida". É desconcertante para muitos heróis, no início. Na Katábasis temos o mergulho nas trevas, enfrentar os limites, crenças e valores que não são propriamente nossos, para retirar deles o que nos seja útil e descartar (matar e eliminar o grande dragão) tudo o que não concordamos ou que não nos traga nada de bom ou que nos limite a pensar de novas formas, a inovar. Na Anagnosis começaremos a usar a energia psíquica presente nos arquétipos (deuses gregos) conscientemente para criar novos projetos para a nossa vida, nossos negócios, nossa existência, e na apoteosis iremos além, nos preparando para levar esses projetos, negócios, enfim essa vida nova para o mundo "lá fora", porque o treinamento da Jornada é um laboratório. A vida real, o desafio real, se processa "lá fora", no cotidiano que devemos preencher de significado e vida!

Até agora estivemos conversando só sobre a Paidea, sobre o que acontece no início da Jornada, que é justamente essa parte do treinamento em que começamos a duvidar do que vem "de fora", duvidar que vivamos no "melhor dos mundos possíveis" e que todas as idéias já foram pensadas, todas as melhores alternativas já foram tentadas e que não há nada mais útil e funcional do que nos resignarmos com as respostas que vêm "de fora", do Mercado, da Mídia, da Moda, etc. Só acreditando que outras realidades são possíveis, outro sistema de valores, outros comportamentos, outras individualidades são possíveis é que poderemos realmente inovar e instaurar algo de significativo e novo no mundo. Steve Jobs, se não acreditasse em tecnologia portátil com baterias de longa duração não teria criado o império da Apple, Jung se não acreditasse que os mitos eram mais que historinhas de povos primitivos e que significavam padrões de comportamento típicos do ser humano - seja ele japonês, norte-americano, brasileiro ou nigeriano - não teria desenvolvido a genial psicologia analítica, Einstein se não tivesse duvidado da noção de espaço e de tempo newtonianos que era a única aceita em seu tempo, não teria desenvolvido a teoria da relatividade, Mahatma Gandhi não teria libertado a Índia do império britânico se não duvidasse de que aquilo era inevitável e não teria feito da forma que fez, sem dar um tiro, se não acreditasse que isso era plenamente possível. Essa é a primeira parte da Jornada do Herói, duvidar para acreditar.

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Fim da primeira parte da entrevista, a seguir: Katábasis, o caminho do herói e as noções de compromisso e desafio.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Entre a Jornada e a Arte, conexões e concepções

O blog Areté e Timé - palavras que querem dizer "Superioridade" e "Honra", respectivamente - é um único blog destinado a unir dois treinamentos do Instituto ATENA: "A Jornada do Herói"® e "A Arte da Guerra Oriental"®, assim como o blog Liderança e Estratégia foi criado para unir os treinamentos "Liderança Corporativa e PNL"® e "Estratégia em Ação"®. Mas o que efetivamente une esses dois treinamentos?

A Jornada
A Jornada do Herói, sobre a qual já foram publicados, aqui, mais de vinte textos, é um treinamento de caráter pessoal, destinado a alinhar metas (em qualquer âmbito do herói-cliente) aos seus valores através de ferramentas criadas e patenteadas num processo que usou a transdisciplinaridade para unir mitologia grega, programação neurolingüística, psicologia analítica, antropologia, neurociência cognitiva e storytelling coach. É um treinamento único, criado através de uma integração íntima que só foi possível graças a anos de estudos e pesquisas. Mas e a "Arte da Guerra Oriental"®?

A Arte
O treinamento "A Arte da Guerra Oriental"® é um treinamento avançado em metas e resolução de conflitos que abrange a cultura política, a economia, o modo de pensar, as religiões e filosofias e as relações internacionais das três maiores culturas do oriente contemporâneo: Índia, China e Japão. Digo "avançado" porque "A Arte da Guerra Oriental"® é um treinamento que exige mais do Artista-cliente e do treinador, é um treinamento longo, com quatro meses de duração, o único treinamento de "formação" do Instituto ATENA. Para ilustrar onde, como e quando os dois treinamentos se interceptam e se completam, vou fazer algo que meus Heróis da Jornada adoram: explicar um conceito e contar uma história.

O Conceito
Yin e Yang, mais do que "passivo" e "ativo" são também conceitos de movimentos. Quando nosso coração se desinfla, levando sangue, nutrientes e oxigênio para nossas células, no momento da diástole, ou quando ele se infla, tragando o sangue que precisa ser limpo e realocado, na sístole, ele está, respectivamente, em movimentos centrífugas e centrípetas, em busca do yang - do ativo - ou do yin - do passivo, e é só assim que a vida é possível. O mesmo se opera na vida psíquica do indivíduo. Precisamos de momentos de extroversão e introversão, dos nossos silêncios tanto quanto das nossas conversas, de excluir tudo o que não nos pertence tanto quanto de incluir o novo. A energia psíquica se manifesta entre esses dois opostos e é a partir daí que a vida pulsa.

A História
Um dos períodos mais importantes da história da China, foi o período dos "Dez Grandes", um período entre o aparecimento da espécie humana nas planícies chinesas e um grande dilúvio. O primeiro desses grandes imperadores foi Fu Hsi e o segundo Shen Nung.

Fu Hsi e Shen Nung
Fu Hsi foi, consta a lenda, o criador (ou descobridor) dos trigramas que formam o I-Ching. Ele criou apenas os oito trigramas e não 64 hexagramas que compõem o "Livro das Mutações", mas deu início a todas as concepções que embasaram um dos oráculos mais antigos do mundo. A seu modo, estabeleceu uma nova concepção do mundo e uma nova forma de se relacionar com ele, ou seja, fincou sua marca e, a partir da sua existência, haveria uma nova forma de vivenciar aquele universo, de ler o território da realidade. Foi - na concepção da neurolingüística - um criador de mapas, na concepção da mitologia local e da história do seu país, um imperador e um Herói.

Shen Nung inventou o arado e instituiu os mercados, dando início tanto à produção quanto à troca de mercadorias no território chinês.

O Imperador Amarelo
Após esses dois imperadores seguiu-se o império de Yen-ti que foi destronado por seu irmão, Huang Ti, o famoso "Imperador Amarelo". Esse magnífico e mítico imperador teve nada menos do que vinte e cinco filhos, dos quais não menos do que doze famílias feudais do período Chou se proclamaram descendentes! Huang Ti inventou o uso do fogo, queimou as florestas das montanhas, limpou as matas, incendiou os pântanos e expulsou os animais selvagens. Então os homens puderam criar o gado. Sob seu império foram subjugados os bárbaros das quatro fronteiras, alguns dos quais, conta o mito, tinham furos no peito, braços longos e olhos afundados. Ele consultou seus sábios sobre o Terraço Brilhante (Céu, astrologia) e ordenou que se fizessem tubos musicais e uma estrutura com dez sinos "para harmonizar os cinco sons".

Compreender a importância do Imperador Amarelo, para a China, é compreender a mentalidade yang chinesa e suas ramificações na compreensão e uso prático do poder. Mais adiante, em outro artigo, falaremos da mentalidade Yin, por hora, ficamos com uma passagem prática e densa dadimensão do pensamento Yang do Grande Livro do Imperador Amarelo:

"Dominando o vasto mundo, tenho apenas um propósito em vista, ou seja, manter controle absoluto e cumprir com as obrigações de Estado. Objetos estrangeiros e caros não me interessam. [...] Não tenho necessidade dos manufaturados de vosso país [...] Cabe a vós, ó Rei, respeitar minhas opiniões e manifestar ainda maior devoção e lealdade no futuro, para que, através da perpétua submissão ao nosso trono, possais assegurar paz e tranquilidade a vosso país daqui por diante. [...] Nosso Império Celestial possui todas as coisas em prolífica abundância e não carece de nenhum produto dentro de suas fronteiras. Não havia, portanto, nenhuma necessidade de importar manufaturas bárbaras de fora, em troca de nossos produtos. [...] Não esqueço a distância solitária de vossa ilha, separada do mundo por extensões imensas de mar; tampouco esqueço vossa escusável ignorância sobre os costumes de nosso Império Celestial."

A lógica da mentalidade chinesa, para quem sabe perceber os movimentos internos e externos contemporâneos tanto da sua economia como política, mentalidade e religião. Essa lógica, junto com as lógicas indiana e japonesa são modeladas e trabalhadas no treinamento "A Arte da Guerra Oriental"® para criar o melhor curso de formação de Artistas da Guerra, de artistas do conflito, o espaço onde se produzem as melhores condições possíveis para o florescer completo do artista da guerra. E o que é o Artista da Guerra?


“Um artista da guerra, nada mais é do que um artista do conflito. Aquele que manipula o conflito retirando dele soluções, idéias criativas, saídas inesperadas, úteis e principalmente, tendo conseguido seu objetivo inicial, que está sempre para além do conflito.”Renato Kress

Texto: Renato Kress
Criador dos Treinamentos "A Jornada do Herói"® e "A Arte da Guerra Oriental"®

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Os Sonhos na Jornada do Herói

Sempre me perguntam qual a importância das duas páginas, ao final da apostila da Jornada do Herói, chamadas "Pequeno caderno de sonhos, imagens, reflexões e temas recorrentes durante a Jornada". Esse 'caderno' de duas páginas para as jornadas efetuadas em finais de semana e de doze páginas para as jornadas efetuadas em dois meses, é separado em duas colunas, respectivamente 'registros verbais' e 'imagens'. Fica logo depois do fim da apostila de aula, separando as "quebras de estado" e a "bibliografia" da apostila de aula.

Qual seria a importância de anotar e verificar os sonhos, imagens e reflexões que possamos vir a ter ou desenvolver ao longo das nossas Jornadas?
O treinamento da Jornada do Herói é baseado na transdisciplinaridade entre vários ramos do saber, entre eles, a psicologia analítica - criada pelo psicólogo suíço Carl Gustav Jung - e, para ele, o sonho era "um teatro em que o próprio sonhador é cena, autor, produtor, ator, público e crítico" (Símbolos de Transformação, p.5) O sonho é o maior panorama possível sobre a nossa vida inconsciente.

Hypnos
Na Grécia Antiga o sonho era personificado na divindade Hipnos (também conhecido como 'Oneiros'), uma divindade alada que pousava sob a cabeceira da cama dos seres humanos e contava, por imagens, sobre a vida dos deuses e a relação dessa vida divina com a vida do sonhador. Segundo Corintha Maciel "Podemos considerá-lo um amigo que nos visita todas as noites e nos informa como estamos nos conduzindo em nossa vida, ou, ainda, como um repórter que nos trás notícias de nosso lado oculto."


O Sonho na Jornada do Herói
Ao longo da Jornada trabalhamos com símbolos e processos que ampliam nossa percepção acerca do que está se operando no nosso inconsciente. Seja entrando em contato com aspectos que renegamos para ressignificá-los, seja observando padrões que estavam até então imersos no "ponto cego" de nossas vidas cotidianas, seja mesmo através de sonhos e imagens que nos venham ao longo das dinâmicas e dos dias da Jornada.

O sonho é estudado aqui como veículo e criador de símbolos. Manifesta a natureza complexa, representativa, emotiva, vetorial do símbolo, assim como as dificuldades de uma interpretação. O sonho traz e cria os símbolos, que são as letras com as quais nosso inconsciente escreve as mensagens que nos importa saber sobre o mais íntimo de nossa existência.

"...símbolo da aventura individual, tão profundamente alojado na intimidade da consciência que se subtrai a seu próprio criador, o sonho nos aparece como a expressão mais secreta e mais impudica de nós mesmos. Ao menos duas horas por noite vivemos nesse mundo onírico dos símbolos. Que fonte de conhecimentos sobre nós próprios e sobre a humanidade, se pudéssemos sempre recordá-los e interpretá-los." - Frédéric Gaussen

Sonhos e seus estudiosos
Seguem algumas interpretações do que seja o fenômeno dos sonhos, sob a ótica de diferentes autores.

Para Sigmund Freud "o sonho é a expressão, ou a realização, de um desejo reprimido"

Para Carl Gustav Jung "o sonho é a auto-representação, espontânea e simbólica, da situação atual do inconsciente"

Para J.Sutter "o sonho é um fenômeno psicológico que se produz durante o sono, constituído por uma série de imagens cujo desenrolamento representa um drama mais ou menos concatenado"

Para Henry Amiel "o sonho é o domingo do pensamento"

Para Roland Cahen "...o sonho exprime as aspirações profundas do indivíduo e, portanto, será para nós uma fonte infinitamente preciosa de informações de toda ordem"

O que podemos retirar dessas definições é que o sonho independe da vontade e responsabilidade do sonhador. Sua dramaturgia noturna é espontânea e incontrolada. Nele, a consciência das realidades se oblitera, o sentimento de identidade se aliena e se dissolve.

Panorama da História do Sonho pelo mundo
O Egito Antigo atribuía aos sonhos um valor sobretudo premonitório: 'O deus (Amon-Rá) criou os sonhos para indicar o caminho aos homens, quando esses não podem ver o futuro'. Sacerdotes interpretavam nos templos os símbolos dos sonhos, segundo chaves interpretativas transmitidas pelos deuses. A oniromancia, ou a adivinhação por meio dos sonhos, era praticada em todos os lugares.

Para os negritos das ilhas de Andaman (Andamã), os sonhos são produzidos pela alma, que é considerada como a parte maléfica do ser. Sai pelo nariz e realiza ora do corpo as proezas de que o homem toma consciência em sonho.

Para todos os índios da América do Norte, o sonho é o signo final e definitivo da experiência. Segundo o mitólogo romeno Mircea Eliade "Os sonhos estão na origem das liturgias, estabelecem a escolha dos sacerdotes e conferem a qualidade de xamã, é deles que provêm a ciência médica, o nome que se dará às crianças e os tabus, eles ordenam as guerras, as caçadas, as condenações à morte e a ajuda a ser ministrada; só eles compreendem a obscuridade escatológica. Enfim o sonho confirma a tradição: é o selo da legalidade e da autoridade.

Para os Bantos do Kasai (bacia do Congo), certos sonhos são produzidos pelas almas que se separam do corpo durante o sono e vão conversar com outras almas, vivas ou mortas. Esses sonhos têm caráter premonitório referente à pessoa ou então podem consistir em verdaeiras mensagens dos mortos aos vivos, que interessam a toda a comunidade.

A classificação dos sonhos
As pesquisas analíticas, etnológicas e parapsicológicas dividiram os sonhos noturnos em seis categorias:

1. O sonho profético ou didático: trata-se de um aviso, mais ou menos disfarçado sobre um acontecimento crítico, passado, presente ou futuro; sua origem é frequentemente atribuída a uma força celeste.

2. O sonho iniciatório do xamã ou do budista tibetano de Bardo-Todol: é um sonho carregado de eficácia mágica e destinado a introduzir o homem num outro mundo por meio de um conhecimento e de uma viagem imaginários. Nos dois casos pode vir a incorporar um primeiro estágio de negação da carne-matéria. Nos dois casos, tanto para o xamã quanto para o monge budista, isso pode ser uma fase para um renascimento do sujeito em novo plano da experiência humana.

3. O sonho telepático: que estabelece comunicação com o pensamento e os sentimentos de pessoas ou grupos distantes. Muitos desses sonhos foram descritos por escritores e pessoas comuns antes da primeira e segunda guerra mundiais, por exemplo.

4. O sonho visionário: que transporta ao que H. Corbin chama de 'o mundo das imagens', e que pressupõe, no ser humano, num certo nível de consciência, poderes que nosa civilização ocidental talvez tenha atrofiado ou paralisado, poderes sobre os quais se encontram testemunhos entre os místicos iranianos. Neste caso não se trata de presságios ou de viagens, mas de visão.

5. O sonho pressentimento: que pressente e privilegia uma possibilidade entre mil outras.

6. O sonho mitológico: que reproduz algum grande arquétipo e reflete uma angústia ou uma potencialidade fundamental e universal.

Todos esses tipos de sonhos são passíveis ao longo da Jornada do Herói. Pois o material que trabalhamos são símbolos, e as "escavações internas" que operamos ao longo da Jornada, principalmente ao longo da Katábasis, rearranjam os mosaicos internos de nossa psique possibilitando que novas percepções venham à tona, percepções que nosso inconsciente nos comunicará pela sua linguagem natural, a linguagem dos símbolos.

Exemplos de sonhos de Heróis durante a Jornada
Tomei a liberdade de trocar os nomes dos sonhadores para resguardar suas intimidades.

- Estava numa festa com muitos conhecidos, um amigo de infância - que eu não via a mais de vinte anos - me chamou para dançar. No meio da dança começamos a beber e ele me contou que eu precisava girar menos, porque daquele modo iria cair mais cedo ou mais tarde. Quando acordei estava zonza, completamente desbaratada. Levantei e senti que eu precisava arrumar minha mesa de trabalho e por algum motivo não parei até encher dois grandes sacos de lixo com papéis velhos que eu guardava não sei porquê. minha mente clareou depois daquilo. - Márcia

- Sonhei que estava numa biblioteca subterrânea que subia para um morro, numa colina. Nessa colina vi um ser muito magro fazendo piruetas e acrobacias na beira de um abismo. Não consegui me aproximar dele, mas conversamos. Ele estava confiante e sorrindo e acabou pulando no abismo e eu tenho certeza de que ele não morreu. (Eu escrevi um conto sobre esse sonho de uma heroína aqui) - Lígia

Os sonhos e a Jornada
Usamos as imagens simbólicas que aparecem nos sonhos de nossos heróis como formas de pesquisa das informações que nosso incosciente julgue que sejam tão importantes a ponto de ele querer que nós nos dediquemos a conhecê-los melhor. Orientamos, na Jornada do Herói, sobre as formas como nossos Heróis e heroínas possam e devam anotar e pesquisar sobre seus sonhos, para que os avisos sejam percebidos, que as interpretações sejam possíveis e que os pedidos de nosso mundo interior não sejam negligenciados por nosso dia a dia celerado, nesse tempo que consome todos nós.

Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA
Criador do treinamento A Jornada do Herói
Antropólogo e Cientista Político pela PUC-Rio, Trainer em Programação Neurolingüística pelo Deutsch Verband für Neurolingüistisches Programmieren e pelo International Association of NLP Institutes, pós-graduando em Psicologia Analítica pelo IBMR.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O poder da narrativa: Medo midiático e a Jornada do Herói

"Qualquer um pode fazer história, só um grande homem pode escrevê-la." - Oscar Wilde, Aforismos

Quem observa os observadores?
A vida cotidiana é vivida numa sucessão interminável de fatos, dados, datas e acontecimentos. Vivemos sobrecarregados, atordoados e minimizados por televisão, computador, facebook, twitter, jornais, revistas, imagens e representações de uma realidade que já quase não vivemos senão por projeções. Projetamos nosso presente e deixamos que ele se alastre por diversos instantes que cronologicamente pertencem ao passado e a uma expectativa de futuro, de forma que viver efetivamente o presente é quase impossível hoje em dia.

Fuga do agora, vida em projeção
Não espanta que o budismo seja uma das filosofias religiosas que mais crescem hoje em dia, justamente porque prega a vida presente, o momento presente o aqui e agora que somos educados pela mídia a negligenciar constantemente. É impossível agir no passado ou no futuro, eu não posso, agora, ir dormir mais cedo ontem ou  resolver um problema semana que vem. Não é metafísica, é a constatação mais prática e óbvia possível! Só parece metafísica porque estamos submersos numa cultura de projeção, anestesiados, sem contato com o presente, incapacitados de fazermos nossa própria história. Há um jogo perverso de poder aí e é dele que trataremos nesse artigo.


Um mundo de coadjuvantes
Exercita-se, diariamente, a idéia de que devemos nos informar sobre o que ocorre ao nosso redor e, na nossa cultura, a forma mais corriqueira de informar-se é ler um jornal, revista ou ver o noticiário na TV. É apenas uma idéia cultural, não é uma realidade nua e crua. Se realmente nos atermos aos interesses em jogo nesses veículos de comunicação, perceberemos outras lógicas operando no que chamamos de "jornais", lógicas que cabe sempre a cada um, individualmente, estar a par para poder conscientemente concordar ou discordar, aceitar ler ou ignorar, manter sua assinatura vitalícia do jornal ou buscar fontes alternativas cujos valores sejam mais coerentes com os teus valores enquanto indivíduo.

A memória pessoal e a memória sobressalente
Mas antes de tudo é preciso conhecer os interesses que movem esses meios de comunicação e, para isso, podemos fazer da mesma maneira como fazemos com as pessoas ao nosso redor, observar suas ações ao longo do tempo para determinar a trajetória do caráter delas. Usar a nossa memória para analisar os veículos que se propõem a ser uma "memória sobressalente" sobre a nossa sociedade e cultura. Não é um exercício fácil, mas como tudo o que diz respeito à Jornada do Herói, o fácil não tem mérito, não tem esforço, não imprime uma marca densa na memória, que é o que queremos.

Mudança, direção e sentido
"A história humana é o resultado do conflito dos nossos ideais com as nossas realidades, e a acomodação entre ideais e realidades determina a evolução peculiar de cada nação." - Lyn Yutang, Com Amor e Ironia

 A vida é um processo de contínua mudança. Nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos. O processo pode ser lento o suficiente para que tenhamos a impressão de uma consciência mais ou menos rígida de quem somos e do que somos, mas em efeito essa consciência muda com o tempo e o espaço.

Representamos o que na sociologia se convencionou chamar de "papéis sociais" distintos ao longo da vida e em diferentes meios, mas o "papel social", o que Jung denomina como "persona", faz parte e é também uma representação coordenada, socializada, do self, de nosso eu mais íntimo. Então se a persona muda essa mudança reflete também o grau de espectro aceitável dentro das manifestações possíveis do self. Ou seja: eu me adapto à sociedade e essa adaptação mostra também um pouco das minha escolhas, da minha autonomia e natureza íntimas. Minha "persona" é parte do meu "self", a escolha que efetuo sobre a parte minha que irá se aventurar e se expor ao mundo fala também de mim, do meu eu que escolhe e do meu eu que se esconde.

Quem é o narrador? Quem dá o sentido?
O que importa para compreendermos como a Jornada do Herói se implica no momento histórico que vivemos, com a disseminação do medo coletivo e difuso televisionado diariamente, é compreender como a autonomia do indivíduo é roubada, como o seu caráter libertário, sua liberdade, é cerceada pelos mecanismos que buscam deter o poder da narrativa, o poder de doar o sentido ao mundo.

"A história é o pesadelo do qual estamos tentando acordar." - James Joyce
Existe uma citação que diz que "A história é contada pelos vencedores" e também é uma questão prática, nada filosófica ou metafísica: quem permanece vivo vai lá e escreve, quem permanece no poder tem condições de se fazer ouvir mais e melhor. O que me leva a pensar, e se invertêssemos essa dinâmica? "Quem se faz ouvir mais e melhor permanece no poder", será que isso é verdade?

Quem conta a história dá o seu enfoque, dá a sua versão, enfatiza o que interessa e o que percebe. Aquilo que mais me atinge num determinado acontecimento vai ser aquilo de que mais me lembrarei quando relatar o acontecimento a alguém, sempre! O enfoque depende das minhas sensibilidades e interesses. Por isso sempre convido meus alunos a compreender os interesses dos que contam as histórias, principalmente quando eles vendem a ideia de que estão contando histórias "reais" ou por um prisma "imparcial".

Boicotes e ênfases, jogos de poder orquestrados
Penso sobre os institutos de pesquisa científica do Rio de Janeiro, as universidades, as ongs, oscips que realmente trabalham sério, diariamente, para construir um mundo mais digno e que só saem na televisão quando são alvos da "violência", do "pânico generalizado", do "terror" e outras das palavrinhas chaves que podemos contar aos milhares nos diários informativos impressos ou televisionados. Há um recorte aí. Há um silêncio programado sobre o que temos de bom, uma ênfase perversa em construir um discurso do mal crescente. Essa ênfase custa dinheiro e todo dinheiro é gasto com uma meta. A tinta do jornal, o combustível dos caminhões que levam eles a todos os bairros pela manhã, o salário dos jornalistas, o aluguel dos prédios de redação, o horário na TV, os ternos impecáveis dos apresentadores não são de graça. São caros e ninguém gasta dinheiro a troco de nada. Há um interesse aí e esse interesse recorta preferencialmente o medo.

Medo, manipulação e poder
"Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer com que as coisas não pareçam o que são." - Miguel de Cervantes, Dom Quixote


Manter uma população com medo é manter uma população com o que em psicologia se chama de "rebaixamento do nível mental". A capacidade cognitiva do sujeito sob o domínio do medo se reduz às possibilidades ditadas pelo cérebro chamado "reptiliano": ficamos sujeitos a pensamentos simples e rasteiros , prisioneiros da ideia principal do cérebro reptiliano ("fugir ou atacar") ficamos submersos em uma lógica dual como maniqueísmos e bipolaridades de todo o tipo como "bom-mau", "bem-mal", "herói-vilão", "nós-eles", "certo-errado" e nossa capacidade de organização e discernimento é rebaixada a quase zero. O mundo é mais complexo que os binômios "favela-asfalto", "dentro-fora", "hétero-homo" ou "homem-mulher", mas numa atmosfera permeada pelo medo é quase impossível perceber isso.

"O medo é um dos soberanos da humanidade. É o que possui o maior dominio de todos. Ele faz-nos embranquecer como velas. (...) Tem se criado mais medo do que qualquer outra coisa. Como força modeladora, não perde para a própria natureza." - Saul Bellow, Henderson, o Rei da Chuva.

Diante desse quadro nos é vendida (mesmo! eles cobram por isso!) a compreensão de que há um "quarto poder" em ação, a grande imprensa. Responsável, entre outros, por contar a história, por dar um sentido uma ênfase e um enfoque a essa história, por apontar "heróis" e "vilões", "culpados" e "inocentes", por colocar-se no papel da vítima indefesa que, através da própria vitimização, justifica um determinado posicionamento político cada vez mais agressivo, excludente e violento.

Quem tem medo de quê?
"O medo é o pior dos conselheiros" - Alexandre Herculano, Apontamentos para a história dos bens da Coroa e dos forais.

Creio, e talvez seja uma jogada um tanto quanto esperançosa, que o maior medo que pode haver é o medo do potencial criativo do ser humano. Todo o mundo que aí está, tudo o que hoje obedecemos e temos como verdade absoluta foi criado por homens. É o que o sociólogo Émile Durkheim chamava do "poder dos mortos sobre os vivos", o poder dos que primeiro criaram as regras e fizeram elas valer, da forma que for.

Quem narra, quem é narrado, quem dá o sentido?
O maior de todos os medos, a meu ver, é o medo que todos os sistemas que detêm algum poder têm de que esse potencial criativo do ser humano - a capacidade de ser o narrador da sua própria história - seja descoberto e ampliado. E se amanhã a "sensação de insegurança" veiculada pela mídia acordasse com uma certa "sensação de insegurança"? Se ela não fosse mais tão "óbvia". Se ao invés de ouvirmos à televisão desligássemos e ouvíssemos o som das ruas, se conversássemos com nosso vizinho ao invés de olharmos ele como "o outro", "o desconhecido", como uma ameaça em potencial? E se abandonássemos o papel de espectador e assumíssemos uma postura de protagonistas das nossas histórias? E se criássemos nossos próprios sentidos, e se fôssemos nossos próprios heróis?

"A única coisa de que devemos ter medo é o próprio medo." - Franklin Delano Roosevelt, Discurso de posse.

Texto: Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA e
Criador do treinamento "A Jornada do Herói®"
Conheça mais do treinamento A Jornada do Herói®

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Heroínas: Desafios e integração na Jornada

Ártemis
A Jornada e a Mulher

Quando penso nas várias edições da Jornada do Herói, desde os tempos de 2005, quando a primeira delas foi efetuada no Flamengo, no Rio de Janeiro, em parceria com o INAp, observo uma singularidade interessante: a maior parte dos grupos é composta por Heroínas, mulheres sábias, corajosas, verdadeiras guerreiras, em busca do maior desafio: vencerem-se a si mesmas, descobrirem e manterem suas identidades de mulheres, mães, amantes, filhas, profissionais, esposas e amigas numa sociedade em que a feminilidade só é exaltada quando vinculada ao consumo.

As experiências femininas na Jornada sempre são impressionantemente enriquecedoras para o homem que souber observar, aprender e respeitar essa dinâmica complementar, essa vivência integradora. O olhar atento e a atitude de aprendiz leva sempre ao melhor aproveitamento, em ambos os sexos.

Afrodite
Animus, o caminho da integração feminina
A psique humana opera por pares complementares, opostos que funcionam como balizas para o fluxo da energia psíquica, que é o que mantém nossas mentes em funcionamento, nossas idéias chegando e indo embora, nossos sonhos à noite. O homem naturalmente tende a ter uma compreensão mais masculina da realidade e o inconsciente (numa situação normal) tende a criar um pólo oposto, compensador e integrador dessa visão unilateral da realidade, a Anima. O mesmo ocorre com a mente feminina. Jung chamou às manifestações de complementariedade masculina e feminina do inconsciente respectivamente de Animus e Anima.

Na famosa obra "O Homem e Seus Símbolos", Marie Louise Von Franz define magistralmente os conceitos de Anima e de Animus. Por hora nos concentraremos no Animus, a contraparte masculina de uma psique feminina, ou, segundo Von Franz, "a personificação masculina do inconsciente da mulher". Como todas as manifestações do inconsciente, o Animus é simbólico, ou seja, dual, dialógico, possui uma dimensão positiva e uma dimensão negativa.
Atena

Enfrentando o Dragão
O Animus pode se manifestar como uma idealização das características paternas da mulher, o que geraria um afastamento de qualquer relacionamento humano. É aquela velha fórmula do "nenhum homem é bom o suficiente para a minha filha" (na mente do pai) transubstanciada para "nenhum homem é bom o suficiente" (na mente da filha). Nessa fase pensamentos oníricos, desejos e julgamentos definem "como uma relação deveria ser" e afastam a mulher da realidade da vida, que não se adequa a padrões pré-estabelecidos, mas é plástica, mutável. Resta, na Jornada do Herói, o reconhecer e o enfrentar essa imagem, retirando dela o potencial para uma vida psíquica saudável.

O Barba Azul
"O homem talvez seja apenas o monstro da mulher e a mulher o monstro do homem" - Diderot, O Sonho D´Alembert

Hera
Dentro desse aspecto do Animus temos, por exemplo, a figura do Barba Azul - que assassinava em segredo todas as suas esposas e guardava seus cadáveres num armário (ou num quarto) que nunca deveria ser aberto. Engraçado que a chave desse armário (ou quarto) era confiada à nova esposa, com a ordem expressa de que ela nunca abrisse a porta. Lembra a história da caixa que Zeus entrega a Pandora com a ordem de que nunca fosse aberta, junto com a chave, é claro! Esse tipo de personagem é característico de um Animus repleto de reflexões semiconscientes, frias e destruidoras. Um tipo de pensamento calculista, malicioso e afeito a intrigas.

Trabalhar o Animus, tarefa da Jornada
"Só querer se relacionar com aqueles que se aprovam em tudo é quimérico, e é o próprio fanatismo" - Alain, Considerações

No mais íntimo murmura o Animus não trabalhado: "Você não tem salvação. Para que lutar? Não vale a pena!". Essas manifestações retrógradas do Animus servem para sinalizar a necessidade de enfrentarmos de frente suas necessidades e demandas, caso contrário a mulher estará presa a sentimentos crescentes de passividade, paralisação dos sentimentos, profunda insegurança ou uma sensação de nulidade e vazio abismais. Um Animus não trabalhado, em geral, é um fator de alienação psíquica, que desvia a mulher do seu potencial criativo.

Selene
A Jornada do Herói é um processo que, para a mulher, descortina o que lhe é próprio e íntimo no caminho da busca e integração da intenção positiva do Animus. Redimensiona-se a influência psíquica do Animus para que o foco seja, então, suas intenções positivas e essas são trabalhadas na Jornada, rumo à integração na consciência. É onde o treinamento alinha metas (projetos para o futuro) e valores (alicerces morais e históricos da biografia única das nossas heroínas).

Aspectos positivos do Animus
"Há tanta diferença entre nós e nós mesmos quanto entre nós e o outro." - Montaigne, Ensaios.

Trabalhando com o Animus, lidando com suas limitações e desenvolvendo suas grandes potencialidades, as heroínas da Jornada desenvolvem uma atividade criadora e rica de sentido. Começam a doar sentido para o universo ao seu redor e a emanar significado, transformando a vida num processo psiquicamente sustentável, desafiador e criativo.

Gaia
Um grande número de mitos e contos de fadas conta a história de um príncipe transformado por uma feiticeira em animal ou monstro, que é redimido pelo amor de uma jovem, processo que simboliza a integração do Animus na consciência.

Heroínas: mulher e plenitude
"Deus só criou as mulheres para domar os homens." - Voltaire, O Ingênuo.

A atenção consciente que uma mulher tem de dar aos problemas de seu ânimus toma muito tempo e envolve uma quantidade considerável de energia e sofrimento. É justamente no tempo e no sofrimento, como na escolha em trilhar o caminho de maior descoberta e aprendizado, que reside o mérito. É aí, então, que podemos chamá-las de "Heroínas", porque desenvolveram não só a Areté - a "superioridade" caracteristica de quem integrou partes conflitantes de sua psique, não eliminando os conflitos, mas elevando-os a um novo patamar - e a "Timé" - a "honra" característica de quem soube levar esse aprendizado para o dia-a-dia, para o convívio saudável e engrandecedor da sociedade e dos que as cercam.

Heroínas são essas mulheres incríveis que enfrentaram essa realidade em lugar de se deixar dominar por ela e tornaram o Animus um companheiro precioso que vai trazer como dote a esse "casamento sagrado interior" uma série de qualidades masculinas como a iniciativa, a coragem, a objetividade e a sabedoria espiritual que transcendem a dicotomia frígida da batalha dos sexos externa e da resistência à integração do Animus, interna.

Heroínas são aquelas que ouvem o chamado interno à aventura de si mesmas e respondem integrando, assimilando o que seu Animus tenha de positivo e utilizando essas capacidades como estados de recursos para os maiores desafios que surgirão, sempre, adiante.

Texto: Renato Kress
Imagens: Google Imagens, Deusas e manifestações do feminino

domingo, 18 de setembro de 2011

Jornadas sobre a Jornada

"Os homens sobem pelo mesmo caminho pelo qual os deuses descem. Só com essa diferença: de cima para baixo, despem-se os deuses: de baixo para cima, despem-se os homens. A meio caminho, deuses e homens se encontram, mais ou menos vestidos, mais ou menos despidos. A meio do caminho, homens se reconhecem nos deuses e os deuses nos homens. A meio do caminho, deuses saúdam os homens como seus iguais. - Eudoro de Sousa"

O caminhar na Jornada, perspectivas e leituras
Ando tendo conversas maravilhosas na Alemanha com um amigo interessantíssimo. Químico profissional, instrutor de Kung-fu, estudioso de I-ching, treinador em Constelação Sistêmica, alquimista por intuição, amigo por destino, Hans é um cara fenomenal com quem a conversa flui naturalmente por horas fazendo crer que meu alemão é quase compreensível. Uma e outra e outra vez a conversa vem, volta e versa sobre o mesmo apaixonante tema: A Jornada do Herói.

Temos visões diferentes acerca da Jornada, embora perfeitamente compatíveis. Vivemos diferentes mapas, diferentes realidades e, mesmo quando estas se assemelham, diferentes leituras culturais, pessoais, etárias sobre a mesma realidade. Abrindo mão da possibilidade de cristalização do meu ego e tendo bons e afetuosos ouvidos para compreender suas leituras é possível ampliar meu universo e é disso que se trata a vida, a Jornada: aprendizados, constantes.


A construção do ego
"Happe" (Hans-Peter) como ele gosta de ser chamado, vê a jornada como uma forma de construção do ego, de enfrentamento das regiões abissais de nosso inconsciente como uma forma de estruturar um ego sólido, forte, um ego "heróico" o suficiente para enfrentar as intempéries de um universo competitivo, intensamente adverso às investidas de nossa forte vontade. É uma leitura linda, muito inspirada na leitura de Nietzsche e Schopenhauer acerca da idéia de "Vontade" e do choque inevitável da vontade do indivíduo contra um mundo de vontades adversas. Talvez uma leitura típica de uma "visão de mundo" (weltanschauen) alemã.

A dissolução do ego
"Dissolver o ego", essa máxima oriunda das experiências íntimas mais profundas das filosofias e religiões orientais (embora presente também na alta experiência existencial ocidental de um Meister Eckhart ou de um Joseph Campbell), não se encontra - para Happe - na Jornada, visto que para isso é necessário abandonar a identificação com a idéia de "Herói" ou com o ideal de "Ego heróico", típico do fim da adolescência e da idade adulta.

Grandes e pequenos ciclos
A diferença, a meu ver, está na compreensão operada em "grandes ciclos" - uma vida inteira, por exemplo - ou em "pequenos ciclos" - fases da vida, uma década, um ano, um semestre, uma semana, um dia, um ato. Há um antigo e conhecido ensinamento oriental que versa sobre a impossibilidade de encher-se uma xícara já cheia: precisamos esvaziar a xícara para colocar um novo conteúdo, precisamos beber, incorporar as idéias, a própria substância da qual o conteúdo da xícara está impregnado ou jogar fora um chá velho, antigo, para podermos ter, novamente, um continente a preencher, mas a estrutura da xícara é sempre a mesma. Aí reside a diferença entre a concepção de ego - chá - e a compreensão de "self" (si-mesmo) - xícara.

Entre o chá e a xícara
Podemos trocar de xícara, ampliar nossa concepção e nossa percepção de quem somos intimamente e do potencial que reside em nós, mas não podemos dispender de uma xícara, com ou sem chá. A Jornada do Herói não se foca no ego, na quantidade ou qualidade de chá, mas no Self, na qualidade da nossa compreensão sobre quanto chá suportamos e quanto precisamos nos desfazer, seja eliminando crenças limitantes - jogando um chá velho fora - ou vivenciando experiências de aprendizado e engolindo, deglutindo nossas próprias certezas para incorporarmos nosso processo, nossa vida, nossa experiência, nossas escolhas e, naturalmente, eliminar os excessos.
"Em seu sonho, Jacó vê uma enorme escada,
 unindo a Terra ao Céu, e pela qual sobem
 e descem Anjos, (na realidade Seraphim, Chatioth
Ha Qadesh), Santas criaturas vivas, atarefadas
com os afazeres divinos no mundo
 dos arquétipos.
E Jacó 
exclama: O Senhor está
neste Lugar e eu não sabia." - Graziella Marraccini

Entre Deuses e Homens
Quando Deuses despem-se e reconhecem-se nos Homens e quando Homens despem-se e ascendem ao encontro dos Deuses tratamos de uma troca de experiências, de percepções, vivências e energia. Para que haja uma troca é necessário que se estabeleçam dois pontos: emissor e receptor, ativo e passivo, yang e yin,   passado e futuro, dois pólos através dos quais a energia possa fluir.

Quando homens (com "h" minúsculo) permanecem vestidos com suas certezas, com suas compreensões de mundo inebriadas com as certezas do passado, certezas ancestrais de que "vivemos no melhor dos mundos possíveis", de que "tudo o que há de bom, interessante, útil, verdadeiro ou belo já foi feito", permanecem na condição de homens, de reincidentes, meros reprodutores inconscientes de padrões pré-determinados, pela família, cultura, sociedade, época, meios sociais. Quando homens despem-se dessas certezas e começam a perceber que o mundo que existe foi criado e, como tal, pode ser recriado (não sem esforço e trabalho, sem pensamento e ação, sem energia e foco, sem disciplina e mérito) aí sim, eles começam a tornarem-se Homens, a viver o potencial, a partícula de divindade, de entidade criadora de que são parte, então encontram, a meio caminho, os deuses, que abriram mão de sua onipotência distante para encontrarem-se com os grandes Homens, aqueles capazes de canalizar essa energia arquetípica em prol de uma (re)criação do universo. É então que deuses e Homens se encontram.

Mergulhos, perdas, encontros
Pensar a Jornada como um processo de construção do ego é pensar a jornada em termos de Paidea, de início, de fortalecimento da consciência ("coagulatio", em termos alquímicos) para que possamos dissolver ela no manancial interminável da nossa inconsciência e das possibilidades do mundo ("solutio", em termos alquímicos), mas fixar-se nesse ponto é abrir mão de encarar a verdadeira e profunda jornada da Katábasis, do mergulho na sombra de nós mesmos. Lembro que escrevi, a pouco tempo, um texto sobre o simbolismo do sol, como simbolismo do eixo e do centro. Quando nosso eixo é o sol de nosso próprio sistema criamos uma multidão de sombras contra as quais mediremos nosso brilho e quanto maior o nosso brilho, claro, maior a nossa sombra. A jornada é ininterrupta, os desafios, em espiral, se adequam às nossas capacidades, ao nosso crescimento. A vida é mudança, incremento e desafio, para quem se atreve a ser um Homem, um Herói.

Mais uma vez ficamos com a genialidade de um Guimarães Rosa: "O que aprendemos mesmo na vida é a sempre fazer maiores perguntas."

Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Nova versão da Palestra on-line da Jornada do Herói!

O grande amigo Edegar Ferreira fez para mim uma nova e melhorada versão da Palestra On-Line sobre o treinamento A Jornada do Herói, que será ministrado em Niterói nos dias 9 e 16 de julho.

Para ver a nova e melhorada versão da palestra clique AQUI.
Ou aqui: http://www.megavideo.com/?v=MJ1MYHZQ

Para fazer sua inscrição no treinamento criado e patenteado pelo Instituto ATENA, escreva para contato@institutoatena.com


Bem vindo à Jornada!

Entre Ulisses e Aladim, os primeiros passos da Jornada

Imagem da Educação Iniciática
Primeira fase da Jornada do Herói
"Então Al-Adim recebeu as instruções do homem que se apresentou como seu tio distante, para que entrasse na caverna sob as areias do deserto e, sem tocar em nenhuma das pedras preciosas e jóias em ouro puro e madrepérola, passasse direto pelas árvores de esmeraldas cujas maçãs eram rubis e pegasse apenas a lâmpada de dourado fosco e empoeirada, no fim dos jardins de diamantes..."

"Então Ulisses - disfarçado por Atená na forma de um mengido - segurou o calcanhar de seu filho Telêmaco, e disse-lhe 'Ainda não, não aqui, nem agora, mas breve', e o ódio que aquecia suas veias contra os invasores de seu reino e perturbava-lhe o raciocínio deu lugar a um caudaloso rio que já não mais se apressava, pois sabia que o mar estava próximo..."

Treinamento e foco
Todo e qualquer comportamento em nossa vida foi antes de alguma forma "treinado", até o mais comum dos atos, o andar, ou a mais "natural" das nossas ações como o pensar ou o falar foram arduamente incentivados e treinados, do nada à maestria. Quem tem contato com crianças sabe bem disso. O que tomamos por natural nada mais é do que uma habilidade treinada à exaustão, até que realmente se torne 'natural', parte constituinte de nossa natureza e identidade.

A primeira parte do treinamento da Jornada do Herói constitui exatamente essa parte chamada por Joseph Campbell de "Educação Iniciática". Os aprendizados necessários para seguirmos viagem rumo não só de nossas metas, mas ao melhor de nós mesmos. O primeiro aprendizado, exposto na primeira citação da história de Aladim, nos fala sobre a noção de foco e do quanto podemos nos perder com as mil e uma "pedras brilhantes" no caminho, quando não sabemos exatamente o que queremos, exatamente em direção a que estamos nos movendo.

A lanterna no final do jardim de rubis
O início da jornada compreende justamente uma estruturação de uma meta. Partimos do pressuposto básico de que um treinamento, seja ele de qual ordem for, deve ter uma meta, um ponto de referência final para que saibamos em que estamos interessados, qual a razão de enveredarmos por aquele caminho, aprendermos aquelas técnicas e ouvirmos aquelas histórias. Para tudo na vida há que termos uma finalidade, então a primeira coisa dentro do treinamento da Jornada do Herói é justamente definirmos esse foco, esse porto final que nos justifique remarmos braços e mentes por dois dias até transformarmos a distância em memória e aprendizado.

Embelezar o jardim para "pescar" borboletas
Os gregos tinham uma deusa da vitória, chamada Nike (familiar o nome?) e essa deusa era representada como uma pequena divindade alada que pousava somente sobre as palmas das mãos de dois outros deuses: Zeus - o rei dos deuses olímpicos - e Atená - sua filha e deusa da sabedoria, estratégia, guerra, justiça... Ela era representada na forma de uma deusa-fada, justamente porque eles compreendiam que ela possuía um  comportamento semelhante ao de uma borboleta, ou seja, não corremos atrás da borboleta, mas criamos as condições necessárias a que ela venha até nós.
Nike "a Vitória" sobre a mão de Atená

Quando Ulisses, com seu reino invadido por pretendentes que disputavam a mão de sua esposa por acreditarem que ele não mais voltaria dos vinte anos que passou longe de casa - dez combatendo em Tróia e mais dez perdido no mar por haver ofendido ao deus Poseidon - evitou que seu filho caísse nas chacotas dos pretendentes e "perdesse a razão", justificando que eles o assassinassem, ele não estava com medo ou sem interesse em salvaguardar sua honra pessoal ou a honra de seu filho, Telêmaco, mas observando qual seria o melhor momento para efetivamente eliminar os problemas e ameaças definitivamente. Discípulo preferido da deusa Atená, Ulisses já possuía sabedoria suficiente para perceber que reagir com fúria só lhe traria maiores problemas, de forma que buscou uma situação em que apenas os dois, juntos, pudessem eliminar todos os mais de vinte pretendentes de sua esposa... e em menos de um dia, todos estavam chacinados pelo arco de Ulisses e pelas mãos de Telêmaco.

O segundo aprendizado inicial da Jornada do Herói versa justamente sobre a noção de oportunidade, sobre como criá-la e sobre como controlar os próprios estados internos. É a partir daí que tudo tem início.

Bem vindo aos primeiros passos da Jornada do Herói

Texto por: Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA
Criador do Treinamento registrado A Jornada do Herói

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Katábasis: Salto para a coragem

"Não há lugar na terra onde a morte não nos possa alcançar - mesmo que voltemos a cabeça uma e outra vez perscrutando em todas as direções, como numa terra estranha e suspeita... Se houvesse algum modo de conseguir abrigo contra os golpes da morte - não sou homem de recuar diante dela... Mas é loucura pensar que se pode vencê-la..." - Michel de Montaigne

Vivemos numa sociedade em que adiamos. Se antigamente éramos "o cadáver adiado que procria" (Fernando Pessoa), hoje somos uma felicidade adiada que produz. Adiamos a maturidade, a responsabilidade por nossas escolhas, projetamos nossa autonomia numa busca por um "líder" que nos salve de toda dor e sofrimento, de toda falta de sentido e toda ausência de significado e direção em nossas vidas. Vivemos no que eu gosto de compreender como a "patologia social da liderança", uma doença social contemporânea. Incapazes de dar sentido para a realidade que nos cerca, procuramos desesperadamente as asas de um "grande pai" ou "grande mãe", de uma grande idéia ou de uma grande pessoa que nos oriente, que nos traga a fugidia coesão para a nossa história pessoal, social, cultural. Adiamos nossa maturidade.


"Tudo é dor, e toda dor vem do desejo, de não sentirmos dor" - Renato Russo, Quando o sol bater na janela do seu quarto
Sidarta Gautama, o Buda, em sua leitura sobre o mundo, chega a oito grandes conclusões, o que os budistas denominam como "A Nobre Senda Óctupla". Dessas oito conclusões as duas primeiras nos interessam mais, por tratarem exclusivamente da lógica da Katábasis, parte central do treinamento da Jornada do Herói. Essas duas primeiras conclusões dizem:

1. A natureza da vida é dor.
2. Toda dor vem do desejo ignorante.

Nós sofremos enquanto vivemos, perdemos nossos avós, perdemos nossa inocência, a imagem de perfeição que temos de nossos pais, nossas certezas, nossas companhias do passado, nossos amores, alguns amigos, e isso faz parte da vida. A vida é passagem, e nessa passagem há morte, e essa morte é parte da vida e ignorarmos isso, desejar ignorantemente que a vida não passe, que alguma "felicidade absoluta" se estabeleça num fantasioso "para sempre" é o caminho mais rápido para a eterna frustração.

A morte, um ode à vida
Fênix, símbolo da vida que morre e renasce,
recria-se a partir de sua própria destruição
A vida passou, passa e passará enquanto tentamos criar castelos na areia e, através dessa compreensão, passamos não a ignorarmos a vida ou a termos uma perspectiva pessimista, mas a ter a real dimensão dos nossos castelos e a aproveitarmos profundamente cada segundo, enquanto ele acontece. Você deixaria de viver cada um dos momentos de maior felicidade da sua vida, só porque sabe que eles passariam? Ou, sabendo que eles passariam, você viveria cada um deles com a máxima intensidade possível?

Viver a Katábasis, viver a queda
A Katábasis, o mergulho nas trevas, significa o abrir-mo-nos para viver essa perda, o deixar passar tudo o que não é mais nosso, aquela carga extra de certezas velhas, de padrões de pensamentos antiquados, de crenças limitantes e desestimulantes que nos tragam para longe do que queremos ser, que nos atrasam. Viver a Katábasis é deixar passar, é dizer sim à morte, a essa morte do que já não somos, para que possamos nos tornar o que desejamos ser. A Katábasis é a dor libertadora de um profundo banho interno do qual saímos renovados, revitalizados.

A citação de Montaigne, com a qual iniciamos esse texto, só poderia ser bem fechada com uma outra citação, genial, do mesmo autor:

"Para começar a tirar da morte seu grande trunfo sobre nós, adotemos o caminho contrário ao usual; vamos privar a morte de sua estranheza, vamos frequentá-la, acostumarmo-nos a ela; não tenhamos nada senão ela em mente... Não sabemos onde a morte nos espera: então vamos por ela esperar em toda parte. Praticar a morte é praticar a liberdade. Um homem que aprendeu como morrer desaprendeu a ser escravo." - Michel de Montaigne

Morra e renasça na Jornada do Herói.

Texto por: Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA
Criador do treinamento A Jornada do Herói

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Educação Iniciática na Jornada do Herói: Construindo metas, criando significado



O vídeo no final desta postagem é uma pequena parte de um documentário maior. Ontem, assistindo ele, pensei muito sobre os diversos sentidos de que a vida se reveste ao longo de nossa longa trajetória no planeta. Longa para nós, dentro da nossa consciência pessoal da realidade. Curta para as histórias dos povos, mínima para as vida das placas tectônicas, ínfima para o planeta, menos que um piscar de olhos para o universo.



Nuvens em tijolos
Podemos até acreditar que sonhar é colocar as idéias, os pensamentos ou os atos nas nuvens, mas a vida se preenche diariamente de pequenos sentidos à medida em que atuamos em cima dessas nuvens. Enquanto cada caminhar nosso seja um materializar de nossas expectativas, de nossas percepções e projetos nossa vida possui algum sentido, como aquele rapaz que disse que não sabe sobre o sentido da vida, mas sabe sobre o sentido da frase que diz agora e do elo de sentido dessa frase com a anterior e com a próxima e aí temos uma noção de trajetória. Então a vida se torna suportável.

As coisas mais ridiculamente simples, que damos por feitas e resolvidas, não seriam feitas sem um ato da nossa vontade orientada para aquela finalidade. A barba não seria feita, o trabalho acumularia, o estudo atrasaria, o dia passaria em vão. Muito do que damos por resolvido desde já só está "resolvido" porque o esteve antes, em nossas mentes. Nós antevemos passo a passo a resolução de cada pequena etapa do nosso dia e, assim, organizamos o caos em cosmos (ordem) e criamos sentido para cada mínimo abotoar de camisa ou, para as mocinhas, a escolha da cor do batom.



Meios e metas
Talvez quase tudo na vida seja um meio para maiores metas. Pensar num sentido da vida talvez seja enveredar por um caminho que nos fará pensar diretamente sobre o que mais temos receio de pensar: a finitude, a morte. Engraçado como ao longo da vida abandonamos essa condição imprescindível que nos diferencia dos demais animais: a consciência da morte. Existem animais que possuem comportamentos geneticamente determinados em relação à velhice e à doença, mas eles não manifestam efetivamente uma consciência de sua própria finitude, apenas vivem naturalmente o dia enquanto dia, a fome enquanto fome, o sono, o calor e o frio enquanto dados da natureza, do presente, do agora.




O inevitável que evitamos
Pensarmos em um sentido para a vida implica pensarmos na finitude dela, pois somente podemos dar sentido - dar significado - a algo que já abarcamos por completo (mesmo que apenas em nossa imaginação). Dar um significado para a vida é pensá-la através da morte. O que de mim fica quando eu me vou? O que deixo para os que conviveram comigo ou até mesmo para a humanidade? Talvez por isso seja tão complicado darmos um sentido para a vida, porque planejamos cuidadosamente nossa trajetória mental afim de que ela passe o mais longe possível do curso natural da vida, que é a morte. Talvez dar um sentido para a vida na nossa sociedade contemporânea seja tão impossível quanto imprescindível, justamente porque nos apegamos a essa ilusão de permanência, essa ilusão da qual só aceitamos abrir mão em prol de uma ilusão mais sedutora, a meta.

A doce liberdade que nos traz responsabilidade
Se somos todos humanos, falíveis e defectíveis, podemos assumir nossa limitação infantil em resguardarmo-nos entre cosméticos e cirurgias, ou entre carros e ternos de forma mais consciente, mais orientada em relação às nossas metas maiores. Ou à meta maior, do maior sentido de que dotaremos nossas vidas. A grande magia do sentido da vida talvez seja justamente a liberdade que temos de dar a ela o sentido que melhor nos identifique. Por isso no treinamento da Jornada do Herói, a primeira etapa é uma determinação explícita de nossa meta primária ali, do que pretendemos efetuar com as ferramentas e os recursos apreendidos naquela pequena jornada, impulsionadora de outras maiores jornadas em nosso futuro.

O que não vale, nessa seríssima brincadeira toda, é viver escondido entre anacronismos, encolher nossos ombros, nossa vida, nosso potencial e significado em almofadados ambientes infantis, sejam eles o útero macio do nosso ego inflado, de ideologias religiosas, políticas ou alimentares, ou as mais diversas propagandas que prometem freiar o tempo ao nosso redor. A vida precisa de um significado e só há uma pessoa que pode dotar de significado a sua vida. Se estiver na dúvida passe num espelho e procure, esse indivíduo se esconde por lá.

Quem é o protagonista da sua biografia?

Texto de: Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA
Criador dos treinamentos A Jornada do Herói e A Arte da Guerra Oriental